quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Gargalhada


Homem vulgar! Homem de coração mesquinho!

Eu te quero ensinar a arte sublime de rir.

Dobra essa orelha grosseira, e escuta

o ritmo e o som da minha gargalhada:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Não vês?
É preciso jogar por escadas de mármores baixelas de ouro.
Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,
vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,
destruir as lâmpadas, abater cúpulas,
e atirar para longe os pandeiros e as liras...

O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.

Mas é preciso ter baixelas de ouro,
compreendes?
— e colares, e espelhos, e espadas e estátuas.
E as lâmpadas, Deus do céu!
E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trêmulas...

Escuta bem:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Só de três lugares nasceu até hoje essa música heróica:
do céu que venta,
do mar que dança,
e de mim.



Cecília Meireles


Pensa

Pensa no que queres ser
Podes ser tudo o que quiseres
mas não te esqueças de ser poeta.

Desde logo porque a poesia
é a única forma de conheceres
a errata da tua vida no universo.

aj c.



Think about what you want to be
You can be anything you want
but do not forget to be a poet.

Firstly because poetry
is the only way getting to know
the errata of your life in the universe.

aj c.
Ditoso seja aquele que somente

Ditoso seja aquele que somente
Se queixa de amorosas esquivanças;
Pois por elas não perde as esperanças
De poder nalgum tempo ser contente.

Ditoso seja quem, estando absente,
Não sente mais que a pena das lembranças,
Porque, inda mais que se tema de mudanças,
Menos se teme a dor quando se sente.

Ditoso seja, enfim, qualquer estado,
Onde enganos, desprezos e isenção
Trazem o coração atormentado.

Mas triste de quem se sente magoado
De erros em que não pode haver perdão,
Sem ficar na alma a mágoa do pecado.
Luís Vaz de Camões

Beber o mar..

Nunca o mar foi tão ávido
quanto a minha boca. Era eu
quem o bebia. Quando o mar
no horizonte desaparecia e a areia férvida
não tinha fim sob as passadas,
e o caos se harmonizava enfim
com a ordem, eu
havia convulsamente
e tão serena bebido o mar.

Fiama Hasse Pais Brandão


O Ikariano

Imagens com histórias:
A 98-year-old man and his wife on Greece's Ikaria Island.

Ele também é o Ikariano que emigrou para os Estados Unidos, a quem foi diagnosticado com câncer de pulmão quando nos seus 60 anos, deram-lhe menos de um ano de vida, e que voltou para Ikaria para morrer. Em vez disso, ele recuperou-se.

Sim, ele nunca passou por quimioterapia ou tratamento. Ele acabou de se mudar de volta para Ikaria.

Será que alguém descobriu como ele sobreviveu?

Nope. Ele me disse que voltou para os EUA 10 anos depois de ter saído para ver se os médicos norte-americanos poderiam explicar isso. Perguntei-lhe o que aconteceu. "Meus médicos estavam todos mortos", disse ele.

***

"He's also the Ikarian who emigrated to the United States, was diagnosed with lung cancer in his 60s, given less then a year to live, and who returned to Ikaria to die. Instead, he recovered.

Yes, he never went through chemotherapy or treatment. He just moved back to Ikaria.

Did anyone figure out how he survived?

Nope. He told me he returned to the U.S. ten years after he left to see if the American doctors could explain it. I asked him what happened. "My doctors were all dead," he said."

ver o resto do artigo aqui:
http://news.nationalgeographic.com/news/2012/12/121227-dan-buettner-health-longevity-100-centenarians-science-blue-zones/




Em que história nos perdemos

Antologia para 2013, POETA do dia 02/01/2013, poema #2:

Em que história nos perdemos
Em que ruas não pisamos nunca juntos
que brilho nos olhos recusamos
Aurora dos olhos claros
novo fantasma das noites solitárias.

Martín López-Vega.

Qué historia nos perdimos,
qué calles no pisamos nunca juntos,
qué brillo en los ojos rehusamos.
Cuando la vida duele uno rechaza
sus ofrecimientos, desconfía
si de pronto se muestra amable,
teme que todo no sea nada más
que una nueva treta.
Por eso, cuando te me apareciste
allí, sola, en aquel vagón
de tren, dormida,
sonriendo en medio de algún hermoso sueño
del que yo no formaba parte,
creí ver tras tu rostro
al más antiguo de mis enemigos,
y no me atreví a sentarme a tu lado,
y me fui a otro compartimento
vacío y no vacío,
lleno de muy conocidos fantasmas.
( Te huí también al día siguiente
en el coche restaurante,
cuando quisieron presentarnos,
y en la estación, cuando coincidimos
en el bullicio de una noche extraña )

Qué historia nos perdimos,
qué calles no pisamos nunca juntos,
qué brillo en los ojos rehusamos,
Aurore de los ojos claros,
nuevo fantasma de las noches solas

http://es.wikipedia.org/wiki/Mart%C3%ADn_L%C3%B3pez-Vega


em todas as ruas te perco



Antologia para 2013, POETA do dia 01/01/2013, poema #1:

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny, in "Pena Capital"



http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_Cesariny